Vista telescópica detalhada do planeta Saturno destacando o vórtice atmosférico geométrico no seu polo sul

Hubble Descobre Decágono Gigante no Polo Sul de Saturno

Durante mais de quatro décadas, o hemisfério norte de Saturno deteve a exclusividade de um dos maiores enigmas do Sistema Solar: uma colossal corrente de jato em formato de hexágono. Contudo, novas observações astronómicas obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble revelaram um fenómeno igualmente desconcertante no polo oposto. Os cientistas identificaram uma gigantesca onda atmosférica regular com dez lados — um decágono — a rodear a região polar meridional do planeta dos anéis.

A descoberta, publicada num estudo detalhado na revista Science Advances, foi liderada pelo astrofísico Agustín Sánchez-Lavega, da Universidade do País Basco, em colaboração com investigadores do Goddard Space Flight Center da NASA e da Universidade da Califórnia em Berkeley. Esta é a primeira vez que uma formação geométrica regular de grande escala é observada no hemisfério sul de Saturno.

Uma estrutura atmosférica maior do que a Terra

A escala desta nova formação supera qualquer padrão meteorológico terrestre. Segundo as análises científicas, cada um dos dez segmentos que compõem o decágono estende-se por cerca de 16.800 quilómetros, uma extensão sensivelmente superior ao diâmetro total da Terra. A onda propaga-se através de múltiplas camadas da densa atmosfera saturniana, impulsionada por ventos atmosféricos intensos que circulam na direção este.

«Nunca tínhamos observado nada semelhante no hemisfério sul de Saturno. O hexágono a norte tem permanecido lá há mais de quarenta anos, mas este decágono parece estar em plena formação e a intensificar-se, dando-nos a oportunidade única de acompanhar a génese de um padrão atmosférico colossal», destacou Amy Simon, investigadora principal do programa OPAL da NASA.

Como os astrónomos detetaram o fenómeno

O aparecimento do decágono coincide com a lenta transição sazonal do gigante gasoso. Saturno demora perto de 29 anos e meio terrestres a completar uma órbita em redor do Sol, mantendo uma inclinação axial de cerca de 27 graus. Essa inclinação fez com que o polo sul ficasse gradualmente mais exposto e visível a partir dos observatórios orbitais e terrestres nos últimos anos.

O acompanhamento começou a ganhar contornos científicos claros através do programa Outer Planet Atmospheres Legacy (OPAL), que monitoriza anualmente os planetas exteriores com a câmara de campo amplo Wide Field Camera 3 do Hubble. Ao rever dados captados desde 2023, complementados por registos de telescópios terrestres integrados na plataforma colaborativa Planetary Virtual Observatory Laboratory, a equipa confirmou que o padrão ondulatório fraco e difuso se consolidou numa geometria decagonal vincada e estável.

Um laboratório para a dinâmica dos planetas gigantes

Ao contrário da missão Cassini, que durante a sua permanência orbital até 2017 registou apenas perturbações breves e passageiras naquela latitude, os dados atuais sugerem que o decágono se está a enraizar na circulação profunda do planeta. Para os astrofísicos, este processo oferece pistas essenciais sobre a formação de ondas de Rossby verticais e a dinâmica de fluidos em atmosferas massivas não apenas no Sistema Solar, mas também em centenas de exoplanetas gasosos já catalogados pela exploração espacial.



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